08 fevereiro 2010

Os portugueses que mandaram no Camboja

Rei Norodom I

aqui lhes fizera curta alusão há um ano. Em Outubro passado, preparando a visita de estudo que fiz a Phnom Penh, encontrei na biblioteca da Universidade de Chulalongkorn interessante estudo da autoria de Gregor Muller sobre Thomas Caraman, controverso funcionário do quadro colonial francês que se deixara seduzir pelo Camboja e se transformara, como reza o título, num "mau francês", ou seja, num amigo e admirador da cultura khmér. No estudo de Muller é conferida especial atenção aos luso-khméres que se haviam instalado em grande número no Camboja após a queda de Celebes em 1605 (hoje Sulawesi), engrossando uma comunidade católica já existente desde finais do século XVI. Agrupados em kampong tendo ao centro uma igreja, os luso-khméres executaram ao longo de duzentos e cinquenta anos funções análogas àquelas que encontramos em todo o Sudeste-Asiático continental, peninsular e insular: eram intérpretes, escrivães, soldados, guardas-reais e médicos, intermediários entre as cortes que serviam e o comércio internacional que se realizava entre o Índico e o Mar da China. Miscigenados, mantinham religião e língua próprias e detinham liberdades que preservavam com orgulho em sociedades marcadas pela servidão. No Camboja, até ao advento do protectorado francês (1863), os luso-descendentes estiveram sempre nas cercanias da cidade real, sede da corte, em Lovek, depois Oudong e, finalmente, Phnom Pehn.


Phenom Pehn na década de 1860. No norte da cidade, a aldeia católica.

Quando os franceses chegaram, foi-lhes recomendado pelo bispo da missão do Camboja, Mgr. Miche, que prestassem atenção a essa comunidade, potencial auxiliar nas relações com o Rei Norodom I e em tudo preparada para estabelecer pontes de entendimento com o Residente Superior nomeado pelo governador da Cochinchina francesa. Inicialmente, senhores de si e da sua Mission Civilisatrice, os franceses exibiram desdém por esses homens de tez escura que reclamavam ascendência de Albuquerque. Cedo, porém, verificaram que deles não podiam prescindir, pois os naturais não falavam francês e os franceses não dominavam os rudimentos do khmér. Podiam recorrer aos serviços dos anamitas, mas os anamitas (vietnamitas) eram detestados pela população por representarem o inimigo histórico do Camboja. Como parte apreciável da pequena comunidade católica era composta por anamitas católicos (hoalang), que entretanto se haviam cruzado com os luso-khméres, os católicos podiam ser úteis intérpretes, pois também falavam a única língua escrita da região que alguns franceses compreendiam (o Quoc Ngu, ou alfabeto fonético baseado no alfabeto latim que os padres portugueses haviam introduzido no Vietname).

Processo de Col de Monteiro

A corte cambojana, bem como a administração colonial francesa, tiveram de os contratar em grande número. Toda a correspondência entre as autoridades coloniais e o palácio passou a residir nestes homens, alguns de origem muito humilde, outros de abastados cabedais e influência, detendo funções de direcção como conselheiros e mandarins reais. Um destes era Col de Monteiro (1839-1908), nascido em Ponhea Lu, filho de Bernardo Ros de Monteiro e de O'Khun (senhora) Isabel. Muito jovem, partira para Singapura onde durante três anos aprendera a língua inglesa. Ao regressar, aprendera francês com os padres das Missions Étrangères, dominava o latim e, naturalmente, o khmér. Em finais da década de 1850, participou activamente na guerra civil que opunha o Rei a um pretendente ao trono. Saiu-se bem e Norodom I conferiu-lhe relevantes funções como Tesoureiro Real. Ao mudar a capital de Oudong para Phenom Penh, Monteiro recebeu o título de Okhna Prasor Ochar (lê-se Prason Okhan) e continuou a progredir até obter sucessivamente as pasta de Ministro da Marinha, Ministro da Justiça e Ministro do Interior (Ohkna Kralahom). Na viragem do século era membro cativo do governo e homem de muita confiança dos franceses.

Parafernália régia no Palácio Real de Phnom Penh

Nos muitos processos consultados, a presença destes portugueses em toda a administração indicia a existência de forte rede promocional e clientelar. Os luso-khméres protegiam-se, promoviam-se e faziam lóbi em todos os escalões do Estado moderno nascente, mas igualmente se haviam introduzido no aparelho colonial francês graças à protecção que recebiam da hierarquia eclesiástica, muito temerosa da chegada de funcionários públicos impregnados daquele radical anti-clericalismo republicano que passou a dominar a França após o colapso de Napoleão III. Assim se mantiveram até ao fim do protectorado. Quando o Camboja proclamou a independência, estes luso-khmérs mantiveram grande influência. Entre 1863 e 1975, ano da tomada do poder pelos comunistas, residiam perto da Catedral de Phnom Pehn ou numa aldeia, a norte da capital chamada aldeia católica. Famílias muito numerosas (Col de Monteiro tinha 18 filhos; outro funcionário, Kim de Monteiro reclamava uma dezena), eram a burguesia de Estado, letrados, diplomatas, juristas ou simples mangas-de-alpaca que mantinham operacional o Camboja urbano. Está, decididamente, por escrever a saga desses portugueses.



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1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

Sim, resta saber o que lhes terão feito os amigos dos srs. Louçã e Jerónimo de Sousa. Há sobreviventes?